Enquanto ler, ouça:


Acordei. E não tenho a mínima ideia de quem sou eu, e nem de onde estou. Minha cabeça dói como se eu a tivesse batido em um muro. As minhas ultimas lembranças são as de que estava voltando da praia à noite com o meu namorado, o dia tinha sido perfeito, muita diversão, alegria, paz e muito amor. Tomamos banho de mar, pulamos ondas, e colhemos conchas.
Porém, depois do jantar nos desentendemos por causa de ciúmes um do outro para variar, meu namorado ficou muito nervoso, sugeri que nós poderíamos ficar mais uma noite na praia, para ele poder descansar a cabeça e depois irmos para casa, mas ele negou. Brigamos o caminho inteiro e a ultima coisa de que me lembro foi que batemos o carro, estou chorando, e rezando para que meu namorado esteja bem e que ele apenas esteja em um quarto separado do meu, pelo que percebo quando olho para o meu corpo, não me machuquei, mas a minha cabeça continua doendo muito.
Viro para o lado e percebo que a porta está se abrindo, deduzo que seja um médico ou um enfermeiro, ele é alto, moreno e de olhos claros, ele pergunta como eu estou, e digo: - Bem, eu acho. Só a minha cabeça que está doendo um pouco. Então ele me explica que bati com ela no retrovisor do carro e que tive que fazer alguns pontos, mas no resto está tudo bem, sem nenhuma fratura, (como eu já havia imaginado). Para matar minha curiosidade pergunto a ele onde está meu namorado, ele simplesmente me evita e diz que vai chamar alguém para falar comigo, não sei se fico triste ou feliz, se penso que alguém vai vir anunciar algo ruim, ou se meu namorado está bem, e virá me fazer uma surpresa.
Quando o alguém chega vejo que são meus pais, e então começo a chorar e logo os dois choram também, custei um pouco a entender o que havia acontecido, mas depois entendi que os dois estavam ali para anunciar a morte dele, minha mãe me explicou que ele havia morrido na hora e que eu deveria me acalmar, o que não adiantou muito, comecei a entrar em desespero, gritei tanto que duas enfermeiras entraram no quarto e me deram remédios para tentar me acalmar, tentei hesitar, mas no fim fui obrigada a tomar.
Acordei algumas horas depois, não sei quantas, mas acho que se passou um bom tempo, fiquei encarando a parede e pensando no desastre que acabara de acontecer na minha vida, pensei também que uma parede é feita de tijolo, cimento e pedra, e então, me veio na cabeça que minha vida e que eu, são como uma parede, por fora com um reboco bem feito, com uma pintura harmoniosa, porém na parte de dentro cheia de coisas, os tijolos seriam os meus problemas e os erros do passado, o cimento seria tudo aquilo que me prende a certas coisas tanto boas como ruins, por exemplo, sou muito prendida com as minhas amigas, mas também sou prendida a coisas do passado que não me fazem bem algum, e as pedras seriam os obstáculos da minha vida, e acredito que um deles será passar por cima de toda essa tristeza que me corrói por dentro nesse exato momento.
Penso que conheço meu namorado há anos. Antes de namorarmos já éramos amigos, mas quem sabe eu nem o conhecera bem, pois nem eu me conheço! Penso que passamos anos e anos juntos, um do lado do outro, e nunca pude ser quem eu realmente sou. Sempre fui uma parede bonitinha por fora e por dentro cheia de sentimentos que nunca eram falados para ninguém. Penso que tenho amigos e familiares, mas que afinal ninguém me conhece de verdade, pois a minha vida inteira eu fui quem os outros gostavam de ver e não o que eu realmente queria ser.
No meio de todos esses meus pensamentos nostálgicos, entram no meu quarto o médico e meus pais, eles me falam que eu terei alta para ir ao enterro do meu namorado, penso em nem ir, pois não estou me sentindo nem um pouco bem. Mas minha mãe insiste para eu ir porque devo me despedir dele pela ultima vez.
Algumas horas depois já estou “pronta” e meu pai dirige até o cemitério, já esta escurecendo e parece que a lua será cheia. Todos já estão envolta do cachão se despedindo e fazendo a mesma cerimônia de todos os enterros. Chego perto dele, o cachão está fechado, mas boto a mão nele mesmo assim, com a mão esquerda no meu coração, faço uma oração baixinha, e me desculpo por todas as vezes que fui chata e ciumenta, as lagrimas começam a escorrer no meu rosto, respiro fundo, ergo a cabeça, e olho para o céu quase noite, e vejo uma estrela cadente passar a minha frente. E o único pedido que eu tenho para fazer é que tudo isso que eu estou vivendo seja apenas um sonho. Ou que eu apenas deixe de ser essa parede a qual eu sou.